Categoria: Colaboradores

  • Rodar na roda gigante

    Rodar na roda gigante

    Marcos Monteiro

    Tropecei num pedaço de saudade,
    Saí na roda gigante
    Pelas nuvens. Vestes elegantes, cobriam a nudez da cidade

    E eu ensaiei com voz vibrante,
    A canção da liberdade
    Que ecoou sem falsidade

    Nos corações hesitantes.
    E o passo do caminhante,
    Dores gritos que me invadem,
    Faz-me espraiar Saltitante,
    O pó da felicidade.

    Maceió, 21 de março de 2026.

  • Os Neandertais se amavam

    Os Neandertais se amavam

    Marcos Monteiro

    No tempo das cavernas
    Os Neandertais se banhavam na chuva e se amavam.
    Eram queimados do sol e se amavam.
    Abrigavam a fé na caverna e se amavam.
    Arrastava sua mulher pelos cabelos e se amavam.
    De tacape caçavam os bichos e se amavam.
    Enterravam os seus mortos e se amavam.
    Adoravam o infinito e se amavam.
    Enfeitavam seus cabelos e se amavam.
    Colhiam conchas na praia e se amavam.
    Olhavam para as estrelas e se amavam.
    Andavam nus pelo mar e se amavam.
    No templo da liberdade se amavam.
    Com passos de algodão se amavam.
    Com sussurros de oração se amavam.
    Quando preparavam as lanças se amavam.
    Nas cavernas com as crianças se amavam.
    Quando o corpo perfumavam se amavam.
    Os homo sapiens tão sapiens ainda não sabem amar.

    Maceió, 21 de março de 2026.

  • Pela Cruviana levantados do chão

    Pela Cruviana levantados do chão

    Marcos Monteiro

    Como sementes de manga, fomos levantados do chão para que não se extingam horizontes.

    Não chegou o outono, mas a fúria do Vento Norte destruiu as árvores e é hora das aves migrarem para o nada.

    Lá o tempo parou e as ondas agitam o meu coração.

    Os meus sonhos singram o oceano ártico e minha voz congela.

    Quando a Cruviana sopra, eu me seguro em qualquer arbusto.

    Tenho medo de voar e ser levado para praias desconhecidas.

    A Cruviana é vento que arrebenta ilusões.

    Mistério de mulher com nome próprio que sai rompendo barragens, derrubando palácios e transformando o passado em cacos.

    Mulher que me enreda, se enrosca no meu corpo e me levanta para ver verdes impossíveis.

    A Cruviana é Vento, impossível de ser domesticado, Espiral de Tormenta para os donos do chão, mas Brisa de Espuma para os que se encostam, como crianças famintas de justiça.

    Maceió, 21 de março de 2026.

  • Nada vezes nada

    Nada vezes nada

    Marcos Monteiro

    Do nada brotou o céu,
    Do nada apareceu pão.
    O nada por compaixão
    De quem só provou do fel,

    Plantou jardins de emoção,
    Canteiros em profusão.
    Fez tudo a gosto do mel,

    Café com paz e paixão,
    Cujo esboço no papel
    É dum joelho em oração. Gn 1.1

    Maceió, 22 de março de 2026.

  • Expandindo os horizontes

    Expandindo os horizontes

    Marcos Monteiro

    Javé construiu uma cabana
    Pra contemplar horizontes.
    Nas cachoeiras e nos montes,
    Ou mesmo nas partes planas.

    O Criador não se engana
    Quer que sejamos as pontes
    A ligar todos os pontos
    Como um cacho de banana.

    A esperança é a decana
    Dos vales que imaginou.
    Raiz, caule, folha e flor
    Se espalhando na savana.

    O céu e a terra declamam
    O poema de um amor
    Que não esquece da dor

    Daqueles que choram e amam.
    Correm, lutam, cantam, clamam
    Ao brilho do sol e ao amor.

    Maceió, 24 de março de 2026.

  • Incerteza, Incompletude, Inconclusão

    Incerteza, Incompletude, Inconclusão

    Marcos Monteiro

    Não quero a incerteza da justiça
    E nem a
    incompletude da visão.

    Quero ter o direito da preguiça,
    Do ócio criativo, da malícia,
    Caminhando pela imprecisão.

    Prefiro o descompasso, a indecisão
    De viver em um mundo sem divisas,
    Com a regra do amor, da desrazao.

    Maceió, 03 de março de 2026.

  • Os pobres sempre o tendes convosco

    Os pobres sempre o tendes convosco

    Marcos Monteiro

    Para os pobres demora o prontuário.
    Pobres perambulam pelas ruas
    E mostram suas chagas nuas, cruas,
    Como as chagas de Cristo no calvário.

    Somos Herodes, Pilatos, emissários,
    Da injustiça. O pobre para nós é réu primário,
    Detrás das grades da dor e da agonia.

    Pára nós, os seus gritos são poesia,
    Motivo de chacota, que avaria
    O que lhes resta de paz, de harmonia.

    O martelo da injustiça, em zombaria,
    Por suas morte infinitas de sangria,
    Porém é deles o Reino da alegria.

    Maceió, 10 de março de 2026.

  • Jesus subiu o monte e viu a dor

    Jesus subiu o monte e viu a dor

    Marcos Monteiro

    De cima do monte, a arte da vida se apaga,
    Abre-se a cortina
    E o Império do mal que afaga
    Com uma mão, e com a outra assassina,

    Rasga o ventre da mãe da menina.
    É de sangue, o rio que deságua,
    No oceano de intriga e de mágoa.

    Ninguém pode mudar sua sina,
    Mas a paz de um amor paira acima
    Da miséria e do grito de raiva

    Maceió, 09 de março de 2026.

  • A mandala das cores

    A mandala das cores

    Marcos Monteiro

    O amarelo do meu dia esverdeou
    E a sombra da poesia ao entrar
    Pela janela me pedia
    Algum gole do nectar do amor.

    O sol da minha vida se esmerou
    Em brilhar para o azul da alegria
    E uma gota de verde se espalhou.

    E todos arco-íris que existiam
    Choveram sobre a morte e sobre a dor,
    As cores da esperança e da poesia

    Vermelhas como o céu do fim do dia,
    Violas tocavam a Ave Maria
    Para a chuva de raios multicor.

    Maceió, 12 de março de 2026.

  • Tempo de plantar

    Tempo de plantar

    Marcos Monteiro

    Não se tem tempo pra nada
    Mas se tem tempo pra tudo.
    É do tempo que contudo
    Vivemos nossa jornada.

    Tempo que faz caminhada.
    Que nos guia pro futuro.
    Umas vezes sem futuro
    Outras sábio, abençoado.

    O tempo escorre por furos,
    Derrubando de enxurrada,
    Casarões, pedras e muros,

    Planta a paz, de bom algúrio,
    Faz promessas infundadas
    De ouro e pedras lapidadas.

    Maceió, 12 de março de 2026.

  • CONSTRUÇÃO E RECONSTRUÇÃO DE PARAÍSOS

    CONSTRUÇÃO E RECONSTRUÇÃO DE PARAÍSOS

    Reflexões a partir do romance de
    Antônio Callado. Quarup. I e II. Rio de Janeiro: Record, 1984.

    Marcos Monteiro

    Podemos atribuir uma estrutura concêntrica ao romance “Quarup”, de Antônio Callado, onde a ORQUÍDEA ocupa o centro a partir do qual tudo o mais se irradia. “A ORQUÍDEA” é exatamente o título do capítulo central do livro e é a experiência culminante do padre (ex-padre, na verdade) Nando, em sua busca desenfreada de um significado, em sua missão de recriar o mundo, a partir do paraíso perdido. Por esse motivo, vamos propor uma chave de leitura do romance, a partir da construção e reconstrução de diversos paraísos. Esses são os títulos de cada capítulo, onde destacamos em negrito o capítulo central, “A Orquídea”.

    O OSSUÁRIO
    O ÉTER
    A MAÇÃ
    A ORQUÍDEA
    A PALAVRA
    A PRAIA
    O MUNDO DE FRANCISCA

    Mas o que seria a experiência ORQUÍDEA, ou a belíssima e exótica flor transformada em emblema e vivência, encontro inesperado com o mistério e o fundamento da existência, mergulho místico nas regiões insondáveis do todo? É a experiência do amor em sua plenitude erótica, erotismo que ultrapassa os sentidos mas que distende os sentidos, distendendo o tempo e o espaço

    “Nando e Francisca não falaram. Apenas se voltaram um para o outro, braços abertos, e o breve instante em que se separaram foi para deixarem cair no chão as roupas sobre as quais se deitaram debaixo de orquídeas pálidas, separados do rio por um cortinado de orquídeas coloridas. Quando veio o prazer Francisca o fechou em lábios e pétalas quentes sem nenhuma palavra e Nando descobriu o gozo que é profundo e contínuo como mel e seiva que se elaboram no interior das plantas. Se de quando em quando se paravam boca ou ventre era para melhor se verem um instante e constatarem com assombro que eram ainda duas pessoas (p.319).”

    Vamos partir, portanto, deste epicentro do Romance em que o amor acontece e cria a nova sociedade, formada por um novo homem e uma nova mulher. Quem são estas duas personagem que recriam a humanidade em seu ato amoroso e absoluto? Nando e Francisca. Nando, eternamente padre mesmo tendo deixado a batina, que “ninguém muda de profissão”, segundo o refrão repetido constantemente pelo amigo Manoel Tropeiro. Mas um padre que procurando o novo homem, o homem primígeno, encontra a mulher, procura exaustiva que se inicia pelo corpo da protestante ruiva alemã Winifreda.

    “Eis a Mulher como quem acabou de oficiar uma missa negra. Para trás o doce fogo crepitante das ervas ruivas da vida, os vinhos que tingem a fronte e a frente de Winifreda, a Ruiva, circuncisora jovial de Olinfreda-sobre-o-Beberubicão, Winifreda, Bonifreda, Maisquebonifreda (p.88).”

    Winifreda, esposa alemã do Leslie amigo de Nando, seduz o padre sofregamente desejoso de ser seduzido, o qual encontra no corpo sensual da ruiva respostas e perguntas inesperadas, caminhos e descaminhos desenhados sutilmente em seu próprio corpo.

    “Nando entreabriu a batina, a camisa, aspirou o corpo usado, suado e quente enquanto ouvia o sapato rangendo vuic, vuic na areia. Os pelos negros do seu peito estavam ruivos, ruivas as axilas que olhou e sem dúvida o púbis, os braços. Teve medo de se olhar nas águas e ver olhos esbugalhados dentro da roda de fogo de cílios e sobrolhos vermelhos. Todo o mundo ia saber da ocupação do seu corpo católico, apostólico, romano por um ruivo exército protestante. Das canelas à rodela da tonsura (p. 88-89).”

    Na descoberta do sexo da mulher a descoberta frustrante da pressa do sexo do homem, que não consegue segurar o gozo, corpo que se impacienta em expelir de dentro de si sêmen e expulsa aflito e impaciente a eternidade do ato. Tantas outras mulheres, de diversas existências e percepções ideológicas, amadas e amantes, mulheres que se tornam sexo, prazer, vida e promessa, mas que não constroem em Nando a paciência do gozo preparado devagar para ser mais bem desfrutado. Até que acontece Francisca.

    No início, no ossuário, ainda padre, junto de Francisca, artista, restauradora de pinturas, mas separado de Francisca, noiva de Levindo, estudante idealista e revolucionário. No final, depois da “orquídea”, separado de Francisca, expatriada como subversiva, mas junto de Francisca, amando plenamente Francisca, através da luta por um mundo bem melhor do que este, o “mundo de Francisca”. Levindo morrera e Nando, partindo para a luta contra a estrutura militar, assume em homenagem a Francisca, pelo amor de Francisca, exatamente o cognome de “Levindo”. Francisca que não se esconde na arte nem na beleza, nem mesmo no amor por Nando, mas que para dar sentido à morte de Levindo, se envolve em atividades consideradas subversivas como ensinar agricultores a ler, a pronunciar a palavra que recria o mundo. Francisca que torturada e asilada, espera na Europa o tempo todo por Nando, disposta a adiar os ideais, confrontada com a impotência de se lutar contra uma estrutura que a tudo destrói. Esperança do amor de Nando que nunca se realiza. Primeiro porque a vigilância não permite a locomoção de Nando, depois porque confrontado com a possibilidade de assumir a luta clandestina, Nando desiste de sair do país, por achar que estaria assim traindo o amor de Francisca, traindo a própria Francisca.

    E depois o apelo raciocinado: “O tempo que fiquei no Manicômio da Tamarineira e as horas que passei de interrogatórios embrutecedores me convenceram de que é mesmo preciso adiar o Brasil, Nando. Ficar aí é adiar a vida da gente. Principalmente a minha. A nossa… Eles estão facilitando o asilamento e fuga de todos os que estiveram presos. Foge para mim, Nando, eu sei que para você eu valho uma pátria, não valho?” Valia, valia todas as pátrias, valia o risco de uma vida duvidosa na Europa, da procura de sabe Deus que emprego. Tudo era preferível a saber Francisca longe e a chamá-lo com insistência e ignorar esse chamamento (p. 476).”

    Tentativas e tentativas de fuga para o exterior e finalmente a oportunidade oferecida pela própria ditadura, contanto que desista do Quarup nordestino, recriação do Quarup indígena, festa sagrada de criação e recriação de homens e deuses. Entretanto, o momento é outro e outra a atitude de um Nando que encontra na festa em homenagem a Levindo, vítima e mártir esmagado e destruído pelo poderio militar, seu momento de continuidade de lutas abissais e de continuidade do seu amor por Francisca. Aconselhado a aceitar a oferta pelo amigo Djamil, o qual entende a idéia do jantar como frivolidade e irresponsabilidade, algo que não produz nada em termos políticos e ainda avacalha a luta de todos, ele responde paradoxalmente:

    “– Aí é que eu estou começando a fazer não sei que confusão – disse Nando. – Como se, indo ao encontro de Francisca, eu estivesse fugindo dela para sempre. Eu gostaria que ao voltar Francisca me surpreendesse nos braços de Francisca (p. 543).”

    Buscar Francisca é lutar para construir o “mundo de Francisca”, a luta por um mundo melhor torna-se projeto e atividade sexual porque esse mundo melhor é o mundo em que a sexualidade e o amor podem viver projetos e construções mais amplas e plenas. O paraíso é o lugar em que a sexualidade amorosa é caminho para o sagrado e encontro místico e não pode ser regrada ou reprimida.

    Podemos, por conseguinte, perceber a cada capítulo, em cada momento, a localização e a construção de um tipo de paraíso. No centro do romance, o paraíso acontece em um recanto da floresta amazônica. A multiplicidade e variedade de orquídeas produzem uma luxúria cósmica, onde Nando, nos braços amorosos de Francisca, encontra pela primeira vez o orgasmo eterno, fusão de corpos, de histórias, de destinos, de almas. Nando aprendiz do amor e do sexo, pela mão e corpo de tantas mulheres, encontra no corpo de Francisca a sua pátria, a sua origem, a fonte de onde deve ele mesmo aprender a ser um novo homem, junto da nova mulher, Francisca, Francisca, Francisca.

    “Tudo muda, pensou Nando, mas de tempos em tempos os homens tinham na matéria perecível de uma pessoa a prova do imutável. De século em século entra assim misteriosamente no tempo um fragmento da eternidade. Um momento para os que tiverem olhos de enxergar. O tempo iria erodindo a beleza de Francisca como dispersava afinal, grão a grão, as próprias estátuas em que os homens capturavam Franciscas. Mas o recado que Francisca trouxera em si de permanência da graça teria sido dado a todos os eleitos que a haviam conhecido na hora do fulgor. Afinal de contas só uns poucos, numa breve geração, privam e provam de Deus quando ele desce entre os homens (p. 278).”

    No Paraíso da Orquídea, a beleza de Francisca foi colhida plena e eroticamente, como graça inefável de Deus, pelo desejo infinito de Nando. Não mais a pressa, mas o gozo permanente que dissolve tempo e espaço e cria a eternidade. Nando e Francisca tornam-se nesse amplexo o casal ancestral, fonte de novas relações, novas sociedades e novos mundos. Este paraíso central, está cercado pelo Paraíso da MAÇÃ, a tribo indígena, onde o homem brasileiro é encontrado mais uma vez como uma folha em branco a ser recriado. E cercado também pelo Paraíso da PALAVRA, que surge maravilhosamente libertadora na outra tribo, no Nordeste do Brasil, entre agricultores pobres e explorados. O Paraíso da Maçã, desde o início, se apresenta para Nando como oportunidade e vocação. No contato com as tribos indígenas, conhecidas e desconhecidas, se estabelece contatos com humanidades em diversos níveis. Desde a humanidade dos próprios indígenas em sua realidade complexa, como a humanidade de padres e indigenistas em histórias de coragem e abnegação, mas também de fraqueza e pusilanimidade. No imaginário que desperta Nando para a missão, a experiência dos jesuítas com os guaranis.

    “Talvez nem haja mais os meios de organizar os índios numa outra República. Teríamos de encontrar outros métodos de cultivar esse último Adão. Mas no limiar do século dezessete, quando iniciaram sua obra, os jesuítas sentiram que Deus lhes entregava, em condições históricas, o homem em branco, o homem a ser escrito. O jardim do Éden se replantava aqui de acordo com todo o saber da Europa. O alemão Baucke chorou em plena lavoura no dia em que timidamente o primeiro índio começou a cavar a terra ao seu lado. O francês Berger convertia os índios tocando violino. O espanhol Mansilla espremia uvas para que os selvagens provassem o vinho. Quando perderam suas reduções confederadas em República, os guaranis construíram cidades, fabricaram foices e alaúdes, martelos e órgãos. No campanário da igreja de São João Batista, doze apóstolos circulavam, dando as doze horas do dia, e a porta do Colégio de São Lourenço fagulhava ao sol com suas jóias cristal de rocha. A produção comum entrava para os armazéns comuns e se distribuía entre todos para el bien común. As mulheres recebiam o fio e entregavam os tecidos. Não havia nem salário, nem fome. Isto não é lenda, é história. O que os jesuítas chegaram a anunciar, e o mundo esqueceu, é que o homem não precisa de milênios para desbastar em si a imagem de Deus que está no fundo (p.30).”

    Essa imagem idealizada do passado contrasta com a situação concreta do presente. Os indígenas também têm falhas humanas como o ciúme e a violência pessoal, mas também não se pode negar que são as vítimas de um processo de ocidentalização violento sob quaisquer aspectos que se resolva analisar. O índio Aicá coberto de pústulas é demonstração corporal dessa violência e a epidemia que atinge os sauás e os dizima denuncia o genocídio a que foi submetida toda uma série de etnias habitantes desse mesmo solo em que vivemos hoje. Nesse paraíso, alguns descendentes dos opressores ocidentais escrevem páginas de dedicação e solidariedade, com risco da própria vida. O próprio Nando tornara-se uma dessas figuras abnegadas que afrontam o perigo e buscam a pacificação de tribos hostis. Pacificou os gorotire e andou meses atrás dos txikão que se esquivavam dos seus presentes até que chegou o momento crucial. Diante dos presentes arrumados perto da aldeia, a possibilidade de paz ou de morte e os sentimentos bem específicos do ex-padre Nando, que enfrenta sem medo a situação de risco.

    “O medo não chegou porque o voto que Nando fez era o de sempre, real como sempre: me varem de flecha, me matem de borduna, me deixem com apenas meia-vida se o preço for amar lentamente as mulheres. Se o preço é este, glória a Maivotsinim sobre o Cristo. Na terra de ninguém entre Nando e os índios na última dúvida houve um câmbio de eflúvios pelo menos tão real quanto uma corrente elétrica. Dias depois três txikão chegaram ao Posto Capitão Vasconcelos atrás de Nando como ovelhas seguindo o pastor. Cristo vencera (p. 272-273).”

    A “vitória” de Cristo significou a possibilidade de Nando prosseguir até o Paraíso da Orquídea e depois, junto com Francisca, no passo progressivo de reconstrução do mundo, chegarem ao Paraíso da Palavra. No encontro com a população pobre do Nordeste, especialmente com os agricultores organizados em Ligas Camponesas, o processo de uma alfabetização que mais do que leitura de palavras é leitura de mundo. O Brasil vive então um momento de efervescência e os círculos de Paulo Freire estão acontecendo durante o governo João Goulart, especialmente entre os agricultores pobres do Nordeste. O governador e a personagem Januário, em Pernambuco, são menções de personagens reais mal-disfarçados. Assim, Miguel Arraes e Francisco Julião tornam-se tipos reais para personagens do romance.

    No novo Paraíso da Palavra, Nando e Francisca, o casal ancestral, ensinam a pronúncia da palavra que cria e recria mais uma vez o mundo. Dividida em suas sílabas e multiplicadas em suas famílias, as palavras cotidianas tornam-se caminho de crescimento pessoal e coletivo e instrumento de lutas e de libertação. A palavra vem em profusão geradora, gera consciência, produz problematização e se oferece como processo de decodificação dialógica para a construção conjunta desse novo mundo que está vindo de múltiplas maneiras. Nesse momento, a esperança e a alegria de ser instrumento de construção de novas sociedades é imensa e o novo mundo está às portas.

    – Meu Reino de Deus foi adiado – disse Nando. – Por pouco. Em nenhum lugar do mundo o mundo está sendo tão rapidamente alterado e tornado melhor como aqui, neste ponto do Brasil, neste momento. E eu estou dentro do turbilhão. Sou uma faísca do raio. Quando além disto eu tiver Francisca vou viver ao mesmo tempo nesse turbilhão e na eternidade. Entendeu? (p. 399).

    Mas esse novo mundo vai demorar muito mais porque a história tem as suas próprias regras e surpresas. O Paraíso do Éter e o Paraíso da Praia estão mais distantes do centro, do Paraíso da Orquídea, mas ambos propõem dois espaços diferentes de liberdade. O carnaval é o símbolo desse primeiro paraíso e a praia em sua promissão de horizontes é o próprio convite de uma nova possibilidade de paraíso. O Paraíso do Éter acontece logo que Nando, no Rio de Janeiro, se prepara para cumprir a sua missão no Xingu, o Paraíso da Praia é o lugar em que Nando, depois do golpe militar, perdendo Francisca para a repressão e não conseguindo ir ao seu encontro, transforma a praia em um novo lugar de produção de um novo homem e uma nova mulher. No primeiro paraíso, sob o éter do lança-perfume, a pátria pode ter contato com o seu inconsciente coletivo, é o caminho de volta para o dionisíaco afogado em um projeto apolíneo linear e repressor. O éter é a substância libertadora que age na direção de desconstrução de uma consciência aprisionada, torturada e violentada. Possibilidade de ampliação dos sentidos e de mergulhos em dimensões existenciais subjetivas, além da banalização do cotidiano. O carnaval tem uma força em si mesma que deve ser canalizada para construções diversas.

    A “vitória” de Cristo significou a possibilidade de Nando prosseguir até o Paraíso da Orquídea e depois, junto com Francisca, no passo progressivo de reconstrução do mundo, chegarem ao Paraíso da Palavra. No encontro com a população pobre do Nordeste, especialmente com os agricultores organizados em Ligas Camponesas, o processo de uma alfabetização que mais do que leitura de palavras é leitura de mundo. O Brasil vive então um momento de efervescência e os círculos de Paulo Freire estão acontecendo durante o governo João Goulart, especialmente entre os agricultores pobres do Nordeste. O governador e a personagem Januário, em Pernambuco, são menções de personagens reais mal-disfarçados. Assim, Miguel Arraes e Francisco Julião tornam-se tipos reais para personagens do romance.

    No novo Paraíso da Palavra, Nando e Francisca, o casal ancestral, ensinam a pronúncia da palavra que cria e recria mais uma vez o mundo. Dividida em suas sílabas e multiplicadas em suas famílias, as palavras cotidianas tornam-se caminho de crescimento pessoal e coletivo e instrumento de lutas e de libertação. A palavra vem em profusão geradora, gera consciência, produz problematização e se oferece como processo de decodificação dialógica para a construção conjunta desse novo mundo que está vindo de múltiplas maneiras. Nesse momento, a esperança e a alegria de ser instrumento de construção de novas sociedades é imensa e o novo mundo está às portas.

    – Meu Reino de Deus foi adiado – disse Nando. – Por pouco. Em nenhum lugar do mundo o mundo está sendo tão rapidamente alterado e tornado melhor como aqui, neste ponto do Brasil, neste momento. E eu estou dentro do turbilhão. Sou uma faísca do raio. Quando além disto eu tiver Francisca vou viver ao mesmo tempo nesse turbilhão e na eternidade. Entendeu? (p. 399).

    Mas esse novo mundo vai demorar muito mais porque a história tem as suas próprias regras e surpresas. O Paraíso do Éter e o Paraíso da Praia estão mais distantes do centro, do Paraíso da Orquídea, mas ambos propõem dois espaços diferentes de liberdade. O carnaval é o símbolo desse primeiro paraíso e a praia em sua promissão de horizontes é o próprio convite de uma nova possibilidade de paraíso. O Paraíso do Éter acontece logo que Nando, no Rio de Janeiro, se prepara para cumprir a sua missão no Xingu, o Paraíso da Praia é o lugar em que Nando, depois do golpe militar, perdendo Francisca para a repressão e não conseguindo ir ao seu encontro, transforma a praia em um novo lugar de produção de um novo homem e uma nova mulher. No primeiro paraíso, sob o éter do lança-perfume, a pátria pode ter contato com o seu inconsciente coletivo, é o caminho de volta para o dionisíaco afogado em um projeto apolíneo linear e repressor. O éter é a substância libertadora que age na direção de desconstrução de uma consciência aprisionada, torturada e violentada. Possibilidade de ampliação dos sentidos e de mergulhos em dimensões existenciais subjetivas, além da banalização do cotidiano. O carnaval tem uma força em si mesma que deve ser canalizada para construções diversas.

    “– Eu não aconselho você a mudar de vida – disse Nando. – E você pode tornar essa vida tão útil como qualquer outra, obrigando os homens a gozar com vocês, a esperar por vocês. Ensinem aos meninos um amor fundo e sem pressa. O Brasil faz planos de governo de cinco anos que duram cinco meses e planos de três anos que duram três dias. Presidentes eleitos por cinco anos possuem a pátria em sete meses, abotoam a braguilha e vão embora. E há Presidentes que duram dois dias (p. 535).”

    A nova sociedade só pode ser produzida através de uma nova sexualidade. Nas relações amorosas, no abraço, no beijo, nas trocas sexuais e genitais, há um caminho de aprendizado que supera o caminho político e o caminho econômico. Essas relações sexuais, corporais, têm uma dimensão mística que escapa de qualquer objetivação e que são fonte de coragem para lutas imensas, além de qualquer compreensão. Os últimos projetos de paraíso a serem analisados constituem os espaços definidos pelo primeiro e pelo último capítulo do livro, o que nos oferece um itinerário, uma caminhada em busca desse lugar utópico que é ao mesmo tempo uma busca de si mesmo. É a peregrinação do Paraíso do Mosteiro para o Paraíso de Francisca, início e fim de uma aventura inconclusa, ou seja início e fim de um fim que não é fim. O paraíso pleno, o Mundo de Francisca, está sempre mais adiante, não é objeto de que disponho mas projeto que me convida a compromissos sempre maiores. O Mundo de Francisca é fusão e refusão de todos os mundos, itinerário do místico à sensualidade, sensualidade que deve ser o caminho para o novo mundo, onde as pessoas viverão o seu corpo em plenitude, comunhão humana e comunhão divina. O Mundo de Francisca não vive a disjunção entre sagrado e sexualidade, mas a integração plena desses dois valores. Isso não virá sem luta, em um Brasil ocupado pela ditadura e pela mentalidade militar da violência androcêntrica; por isso Nando assume a luta clandestina. No início da caminhada, um Padre Nando, na companhia de duas mulheres igualmente interessantes. Voto de celibato cumprido à risca, não percebe a beleza erótica de Francisca, a artista que restaura ao seu lado obras de artes, especialmente relacionadas à vida de Santa Tereza. Essa é a outra mulher admirável em sua intensidade mística em que a linguagem erótica aponta para uma sensualidade transmutada totalmente em fervor sagrado.

    “– Esta divina prisión
    del amor há que yo vivo
    há hecho a Dios mi cautivo
    y libre mi corazón;
    y causa em mi tal pasión
    ver a Dios mi prisionero,
    que muero por que no muero (p.45).”

    Apaixonada por Deus, Santa Tereza contrai núpcias místicas com Jesus Cristo, e se diz muito mais do que pobre de espírito, louca de espírito. O misticismo de Tereza e a sua personalidade admirável apaziguam e justificam o celibato de Nando. Mas Nando mal começou a sua peregrinação e vive paralisado no seu projeto de pastorear os indígenas. O medo não confessado é do corpo e do sexo das indígenas, medo que só vai desaparecer depois da sua iniciação sexual por Winifreda.

    Essa diferente e paradoxal ascese continua como crescimento que vence obstáculos novos e que precisa de novos significados para a sua religiosidade. Como afirma Manoel Tropeiro que ninguém muda de profissão, Nando deixa a batina mas não deixa de ser padre, refazendo e reconstruindo a sua experiência do sagrado. No Paraíso da Orquídea, mergulhando vagarosamente no corpo de Francisca, mergulha em si mesmo, mergulha na vida, mergulha no cosmos, mergulha no próprio fundamento do mistério. Mistério que não pode ser dispensado em nenhum projeto de nova sociedade.

    “– Aproveite a ocasião e trate de se habituar com ele – disse Nando. – Cheiro, gosto, densidade. Mas tem uma coisa, Januário. Você faça o que quiser, vire os fatos como entender, escolha o caminho que lhe aprouver. Mas existe na violência um horror próprio, um elemento negativo inaceitável. E isto, meu velho, é porque nós somos uns bichos de muito mistério. A concepção de Deus está desatualizada, caduca, empresarial, mas vamos precisar dela posta em outras palavras. Senão o mistério come o homem inteirinho, você vai ver.
    Januário deu os últimos passos até ao jipe com pernas firmes.
    – O que é que quer dizer isto?
    – Quer dizer que neste mistério que é o homem a presença divina só admite a violência do amor (p. 428).”

    O mistério está associado ao amor, e se esconde, por conseguinte, no projeto de sexualidade humana. O corpo humano é lugar de mistério e fonte de mistério, amar é dividir mistério corporal, é buscar o sagrado pela força do erótico. Por ser sagrado, lugar de expressão do mistério, o corpo humano é inviolável, não pode ser tolhido, proibido, torturado, esmagado. O paraíso de Francisca, o mundo do corpo de Francisca, só pode se afirmar plenamente como corpo se não dispensar o mistério. A luta não se trava, por conseguinte, nos espaços rotineiros já convencionados como espaços de guerra e de competição. Se o fundamento da vida e da nova sociedade é o mistério, as suas armas não podem ser convencionais. Se o mistério está sempre associado ao corpo e ao amor, a dança, a festa, a comida, o Quarup, são os verdadeiros instrumentos de construção dessa nova sociedade. Maivotsinim sabe que só pode criar gente através do Quarup, e Nando entende que a nova sociedade só pode ser construída a partir da festa e do jantar em homenagem a Levindo. O caminho da construção do Paraíso de Francisca passa pelo Quarup brasileiro, em que todo tipo de comida é preparada e a Marcha pela Família que acontece paralelamente vai se sentir afrontada. Afrontada pela alegria, pelo riso, pelo prazer de comer e de viver a vida com intensidade, as estruturas sociais repressoras, as instituições sociais enrijecidas, invadem o espaço da festa e a violência se estabelece sobre todos, especialmente sobre Nando. E a festa tinha todo o tipo de comida cuja transcrição detalhada tem o único objetivo de nos dar água na boca, que o prazer imaginado também é prazer.

    “Nas geladeiras improvisadas pelos quatro cantos do quintal se acumulou depressa o fruto das pescarias e mariscagens de Amaro, Zeferino, Quimango e Margarida, das ostras e lagostas e lagostins à traíra cor de salmão, ao jacundá amarelo de listras pretas, ao sapé vermelho-escuro com bolinhas pretas; ao camurupim branco-cinza-dourado, de escamas medalhonas que servem para fazer flores. Ao beija-moça miúdo, focinho miúdo, boca pequetitinha; ao saberé roxo com listras amarelas, ao serra esguio, papo branco e lombo azul; à garoupa; à cioba vermelho-rosa; à arabaiana cinzenta; beijupirá preto e branco; bicuda roxo-claro; mero amarelo-moreno com pintas pretas; agulhão atum e agulhão de agulha; boca-mole branco e brilhoso; sapuruna, saramonete, canculo; cação cinzento e liso; carapeba e peixe-pena; tainha, pirapinanga cor-de-rosa; arraia morceguenta; amoréia cobra verde; bonito listrado de azul; dourado amarelo de lombo azul; budião; frade; coro-branco e coro-vianei; peixe-gato que bufa horas fora d’água; barbudo com sua barba branca; polvo; mariquita rosa de olho grande; pacamão; dentão; albacora cor-de-rosa; pirá verde de barriga branca; avoador que voa duzentos metros a dois metros de altura; camorim, agarujuba, aracimbora, xaréu, xinxarra, anchova, acaraúna azul e preta. E vieram as pimentas, malagueta, do reino, pimenta d’água, pimentinha, pimentão ardido, o azeite-de-dendê, o açafrão, gengibre, gergelim, tachos de goiaba, de marmelo, de jaca, de mangaba, de caju. Metediço, intrometido, aguardando o momento de entrar em tudo, coco, coco verde, coco seco, leite de coco aos baldes, laminha de coco, coco de ralar, coco de espremer, coco para entrar no escabeche com cebola e coentro e para amolecer feijão de corda, fradinho, rajado, para cocada, baba-de-moça, papo-de-anjo, perna-de-freira, ambrósia. Em bacias, tachos, louça de barro e louça vidrada começou a entrar o peixe escamado, destripado, desespinhado, lavado a limão e água, pronto para cozedura, fritura, infusão, escaldamento em azeite de cheiro, azeite doce, jilós, quiabos, abobrinhas, coco. Dois dias antes do jantar de Levindo as cozinheiras que seriam quatro já eram quatorze pois as notícias da comilança correram de Cecília e Jandira para outros puteiros, de Djamil para os sindicatos rurais interditados, para a redação dos jornais. Djamil dividiu o quintal transformado em cozinha em quatro zonas, da fritura, do cozimento, da assadura e da doçaria. Baianas chefiadas por Diacuí, também dita Manoela, exigiam fogão, frigideira, pedra de ralar e tipiti e tudo isto obtiveram depois de Diacuí improvisar à moda de teste um humulucu de feijão com raladura de cebola, sal, camarão. Severina alagoana veio empurrando pela rua numa velha banheira de rodinhas um despotismo de sururu e foi de jipe no avião de Maceió buscar uma geladeira portátil cheia daquelas baitas ostras de oceano congelado em conchas de sílex. Mariana Maranhense contribuiu um jacá de camarões secos e Marta Branca amazonense trouxe duas mantas de pirarucu e um balde d’água agitado de muçuãs. Preparou-se aluá de milho e de abacaxi, caldo de caju, refresco de graviola e de cajarana. E de coco (549-551).”

    Na violência que se seguiu, a comida foi usada pelos sitiados como arma de defesa e resistência. Jogava-se e derramava-se comida, molhos e sucos contra os invasores de festa.
    A partir disso, os acontecimentos se precipitaram e Nando, castigado com toda a violência possível, recupera-se somente depois de longo período e resolve partir para a luta clandestina. Construir o Paraíso de Francisca. O corpo de Francisca lembrado e projetado sobre cada pedaço de terra e cada acidente geográfico, é o molde desse novo mundo. A luta é mais uma vez o pleno abraço sexual de Nando, agora cognominado Levindo, sobre o corpo desnudo de sua amada, esse paraíso sempre adiante e sempre adiado.
    Nando já a cavalo mal ouvia Manoel Tropeiro. Sentia que vinha vindo a grande visão. Sua deseducação estava completa. O ar da noite era um escuro éter. A sela do cavalo um alto pico. Da sela Nando abrangia a Mata, o Agreste e sentia na cara o sopro do fim da terra saindo das furnas de rocha quente. E viu: aquele mundo todo com sua cana, suas gentes e seus gatos era Francisca molhando os pés na praia e de cabelos ardendo no Sertão (p. 599-600).

    Só se pode encontrar Francisca construindo o mundo de Francisca. E o mundo de Francisca é a própria Francisca feita mundo. Caminhar pela terra é modo de tocar Francisca e de modelar o corpo-terra de Francisca. Porque o único mundo que vale a pena ser construído é o mundo-corpo prazeroso, erótico, amoroso, de Francisca.

    Maceió, 15 de março de 2026.

  • O homem bala

    O homem bala

    Marcos Monteiro

    O ventilador de casa tinha dez velocidades e era grande o suficiente para Eisenstein testar sua última invenção.

    Fez uma bala bem confortável, colocou-se em posição, apertou o botão do controle remoto e foi arremessado a 300 metros em uma poça de lama.

    A experiência foi um sucesso, só precisa consertar o trem de pouso.

    Maceió, 15 de março de 2026.

  • Tempo de recordar

    Tempo de recordar

    Marcos Monteiro

    Tempo de rasgar, e tempo de coser; tempo de estar calado, e tempo de falar.
    Eclesiastes 3,7.

    É tempo de fuxico. Juntar
    Os remendos numa colcha
    de retalhos
    E costurar a história, plena de atos falhos.
    Com cuidado, rabiscar

    Mil projetos, mil atalhos,
    Trilhas, sonhos de voltar,
    Desejos de recordar

    Tempos de flores nos galhos,
    De passaredo a cantar
    Cantigas sem intervalos.

    As capas são agasalhos,
    Liberdade pra voar
    Por um rasgo de azul claro.

    Maceió, 17 de março de 2026.

  • O vácuo psicopolítico e a concretude

    O vácuo psicopolítico e a concretude

    Pácifer Maia Sabiá

    Quando a caminhada de um movimento, de uma instituição rompe com a pretensa construção interpretativa ascética dos espaços, relações e práticas sociais – em que alça seus membros e representantes como personalidades alheias à problematização ética dos determinantes sociais e à condição que temos em não sermos determinados, mas condicionados -, estamos diante da desconstrução da maquiagem política.

    Quando não nos implicamos no diálogo institucional e aprendemos a nos relativizar quanto a nossa capacidade de construção de compromisso social, só nos resta o heroísmo descolado da complexa estrutura da realidade.

    Ultrapassar a velocidade da luz sem saber que a energia dialoga com o vácuo, algo que não se apresenta no imediato das relações, é não levar em conta as inúmeras formas de produção de sentido que nos atravessam e acabam por denunciar nossa tentativa de alçar vôo sem levar em conta que a ventania dialoga com a concretude do chão.

    A concretude respeita o vácuo, dialoga com o vácuo que nos atravessa a todos. Relações não dialéticas é coisa de céu sem chão. A prescrição na comunicação é o que produz e mata o santo. Não surpreende que pastores não tenham curado os soluços de Bolsonaro. Não é surpreendente que exista uma psicologia que não se assuma ético-política histórico-culturalmente.

    Dez. 29/2025

    Texto 356 no Instagram pacifermaia

    FB Pácifer Maia Sabiá

  • O inferno e o fundo do poço

    O inferno e o fundo do poço

    Pácifer Maia Sabiá

    De onde vem o ódio ocidental? A angústia que paralisa de medo centenas de milhões no Ocidente. Por que esse filtro ideológico gigantesco, no qual maiorias caem no fogo do inferno da concretude cotidiana e privilegiados capitalistas conquistam a felicidade eterna?

    De onde vem essa divisão de classes tão coisificante do social? Que trava a construção de zonas de inteligibilidade a partir das maiorias, seccionadas em identidades-substâncias minoritárias.

    Quais as relações invisibilizadoras das interações entre ódio social, certos valores morais que corrompem o exercício ético-político e o aparato de classe que sustenta nossa visão imperialista de mundo?

    Que acordo tácito foi realizado entre o céu e a terra, sempre visibilizado pela violência imperialista dos deuses ocidentais? Deuses de toda ordem. Deuses que fazem continentes de quintais, numa indústria cultural alicerçada desde capitães do mato a mandatários de latifúndios digitais.

    É lógico que isso só poderia apontar para uma visão apocalíptica mastigada cotidianamente!

    Que não tenhamos de confrontar situações hospitalares negligenciadas por concepções espirituais abraçadas, inclusive, por integrantes de seus extratos de formação médica.

    Por onde anda uma psicologia, uma assistência social que não encara a violência de concepções religiosas que invadem nossas instituições, calçadas pelos tais valores morais invasivos e imperialistas?

    A realidade é multicêntrica, mas precisa ser pensada por categorias de totalidade, a caminho de uma epistemologia social.

    Necessitamos de nossa própria engenharia de projetamento social, que possa nos tencionar entre os coletivos e a singularidade, para o enfrentamento do fascismo de cada dia.

    Jan. 04/2026

    Texto 357 no Instagram

    FB Pácifer Maia Sabiá

  • Finalmente preso

    Finalmente preso

    Edivar Gimenes

    Bem, tenho consciência da historicidade desta data.

    Durante quatros, diariamente quando orávamos antes das refeições, repetíamos uma frase: “Deus, livra-nos deste louco que está à frente do país”‘. Tenha certeza: não era por ideologia. Tenho minha cosmovisão, luto por ela, mas respeito e convivo com quem pensa diferente. A questão era de saúde social.

    O deboche com a dor alheia, o cinismo, o desrespeito com as minorias, o abuso político da religião, a hipocrisia permanente, a falta de empatia e compaixão, o desrespeito com as instituições, enfim, me incomodavam profundamente. Incomodavam Infinitamente mais do que as ideias que sustentam conceitos como direita e esquerda, até porque, no meu ponto de vista, ele não se enquadra no conceito direita, mas no conceito oportunismo patrimonialista.

    Sei, repito, que há quem gosta dele exatamente por ser assim. Sei que, para quem gosta dele por ser assim, não adianta reflexão de qualquer natureza. Nem quero, nessa minha fala, convencer ninguém de nada. Apenas quero dizer que foi um alívio imenso conseguir vê-lo fora da presidência, tanto quanto agora, fora do convívio social.

    Anos na prisão não têm poder de.mudar uma pessoa, até porque no sistema brasileiro não há um projeto politico-pedagógico de recuperação dos presidiários. Apenas o isolamento e, em alguns casos, uma escola de especialização em crimes. Mas desejo  que ele se renda ao verdadeiro espírito de Deus e se liberte do  uso “em vão” do seu nome, como fez em suas campanhas políticas.

    Hoje é dia de gratidão.

  • Feliz 2026 (Atrasado)

    Feliz 2026 (Atrasado)

    Sérgio Dusilek

    “Porque sou eu que conheço os planos que tenho para vocês”, diz o Senhor, “planos de fazê-los prosperar e não de lhes causar dano, planos de dar-lhes esperança e um futuro.” (Jer. 29.11)

    Quando a expectativa nos convida a esperar algo melhor e a virada a deixar o que passou para trás, o que um profeta chorão de mais de dois milênios atrás pode nos dizer ao ponto de encher o nosso coração com esperança de novos e melhores dias?

    Estamos falando da Carta de Jeremias, que foi recebida pelo povo cativo na Babilônia. Eles não queriam estar lá. Alguns, inclusive, rejeitavam a realidade e a interação com este novo momento de vida.

    Assim como eles, por vezes somos achados onde não queríamos estar. Isto tem a ver com geografia, mas também com estado emocional e com realização. A recomendação divina, na Carta de Jeremias (cap.29), não endossa a estagnação. Antes, é um convite à normalidade da vida: construam casas, se instalem nesse local que vocês desprezam; ajudem a manter e construir a ambiência socioeconômica, isto é, a buscar a prosperidade da cidade.

    Não fique estagnado em 2026. Construa; seja socialmente útil (e não fútil).

    A Carta tem algo melhor. O mesmo Deus que tem planos de paz é o que se dispõe a nos ouvir, a ser encontrado. Isto é especialmente importante em tempos em que perdemos a direção. Se em 2026  alguma neblina aparecer no seu trajeto de vida, lembre-se do que Ele afirma: “Eu me deixarei ser encontrado por vocês” (Jer.29.14a). Aquele que era encontrado em meio à fumaça do incenso no Santo dos Santos, segue tangível a nós em meio às névoas da vida.

    Que 2026 traga para sua vida os planos de Deus, os quais vêm embalados com esperança, paz e prosperidade.

    Feliz e abençoado 2026!

  • CARTA ABERTA AO PADRE JÚLIO LANCELOTTI E À SOCIEDADE BRASILEIRA

    A Articulação Nacional de Movimentos e Práticas de Educação Popular em Saúde (ANEPS) torna pública esta Carta Aberta para manifestar seu apoio irrestrito, reconhecimento e profunda solidariedade ao Padre Júlio Lancelotti, cuja trajetória é marcada pela defesa incondicional da vida, da dignidade humana e dos direitos da População em Situação de Rua e de outros grupos historicamente marginalizados.

    Padre Júlio representa, em sua prática cotidiana, aquilo que muitos apenas proclamam em discursos: o compromisso real com a População em Situação de Rua, com os pobres, com aqueles e aquelas que a sociedade insiste em invisibilizar. Sua atuação expressa, de forma concreta, os princípios da Educação Popular em Saúde — o cuidado como ato político, a escuta como prática libertadora e a justiça social como horizonte permanente.

    Vivemos tempos difíceis, marcados pelo aprofundamento das desigualdades sociais, pela naturalização da miséria e por tentativas recorrentes de criminalizar a pobreza, a solidariedade e aqueles que se colocam ao lado da População em Situação de Rua. Diante desse cenário, a presença firme, ética e amorosa do Padre Júlio se torna ainda mais necessária. Sua voz e suas ações são sinais de resistência, humanidade e esperança.

    A ANEPS reafirma publicamente: defender os direitos humanos, enfrentar a fome, denunciar a exclusão social e cuidar da População em Situação de Rua não é crime. É dever ético, social, político e profundamente humano. Reconhecemos na caminhada do Padre Júlio um testemunho vivo de coerência entre palavra e ação, fé e compromisso social, amor ao próximo e defesa radical da vida.

    Que esta carta ecoe como um chamado coletivo à sociedade brasileira: não aceitaremos a criminalização da pobreza, nem o silenciamento daqueles e daquelas que lutam por justiça social e pelos direitos da População em Situação de Rua. Seguiremos juntos e juntas, fortalecendo redes de cuidado, de solidariedade e de esperança, certos de que ninguém solta a mão de ninguém.

    Nossa solidariedade, respeito e admiração ao Padre Júlio Lancelotti.

    Articulação Nacional de Movimentos e Práticas de Educação Popular em Saúde – ANEPS

    Brasil, dezembro de 2025.

  • A seguir seus descaminhos

    A seguir seus descaminhos

    Eduardo Jorge
    Marcos Monteiro

    Nessa poesia, o poeta, por teimosia ou por vício
    Dispensa os seus compromissos
    E parte pro ideal.

    E no ideal ele encontra a realidade de um sonho,
    Porém se torna enfadonho,
    Pois aos grandes desaponta.

    Sonhou só, independente
    De garra e tranquilidade.
    E a ninguém quis obrigar
    A seguir seus descaminhos,
    A lutar quase sozinho
    Pela paz que já não há.

    Maceió, 01 de março de 2026.