Categoria: Marcos Monteiro

  • Dissonâncias linguísticas

    Dissonâncias linguísticas

    Marcos Monteiro

    Estavam conversando sobre emoções.

    Você está sempre tranquila, Mauritinha.

    A vida é uma panela de pressão e tenho medo quando a sua explodir.

    Eu descarrego num texto cheio de dissonâncias ortográficas.

    O meu romance tem final infeliz, a heroína é uma paladina da norma culta.

    Foi assassinada quando descobriram incongruências, políticas, econômicas e linguísticas no seu romance.

    Vícios de linguagem, Oxímoros, catacreses, pleonasmos, redundâncias, repetições do ridículo, metonímias insensatas, petição de princípio, generalizações apressadas e outras transgressões.

    Eu tento fazer pior, jogo no lixo e saio leve para enfrentar o absurdo linguístico da vida.

    Maceió, 27 de fevereiro de 2026.

  • A seguir seus descaminhos

    A seguir seus descaminhos

    Eduardo Jorge
    Marcos Monteiro

    Nessa poesia, o poeta, por teimosia ou por vício
    Dispensa os seus compromissos
    E parte pro ideal.

    E no ideal ele encontra a realidade de um sonho,
    Porém se torna enfadonho,
    Pois aos grandes desaponta.

    Sonhou só, independente
    De garra e tranquilidade.
    E a ninguém quis obrigar
    A seguir seus descaminhos,
    A lutar quase sozinho
    Pela paz que já não há.

    Maceió, 01 de março de 2026.

  • Milhões, grilhões, gritando o grito do dia

    Milhões, grilhões, gritando o grito do dia

    Marcos Monteiro

    Milhões, milhões gritando o grito do dia,
    Cadeia cheia chora agora de alegria.

    Com uma bomba, na Palestina,
    Uma criança
    corria,
    Na contramão de sua
    Cadeia cheia chora agora de alegria.

    Tudo mudando,
    Refazendo a geografia, rescendendo a utopia,
    Cadeia cheia, chora agora de alegria.

    No novo céu, o arco-íris vivia,
    A dor desaparecia
    E a nova terra sorria.
    Cadeia cheia chora agora de alegria.

    A lua parou para amanhecer o dia,
    O calabouço ruía
    Cadeia cheia chora agora de alegria.

    Milhões, grilhões, gritando o grito do dia,
    Cadeia cheia chora agora de alegria.

    Maceió, 02 de março de 2026.

  • O lugar dos sonhos

    O lugar dos sonhos

    Marcos Monteiro

    Quando a noite está com raiva e quer destruir os meus sonhos, eu me refugio nos seus braços e adormeço.

    Cada abraço é diferente.

    O sonho é o mistério do abraço em liberdade.

    Tem manhãs que acordo com o mesmo abraço da noite.

    Corpos sonhando juntos.

    Algumas noites sonho, acordo e beijo os seus sonhos.

    Quando estendo a mão e não e não lhe encontro, levanto de mau humor até o sorriso voltar.

    Sonhei que tínhamos o mesmo sonho e saíamos voando pelo infinito.

    Quando acordei e a vi dormindo, descobri que você é o meu sonho e voltei a dormir.

    Maceió, 25 de julho de 2024.

  • As praias do meu Arrecife

    As praias do meu Arrecife

    Marcos Monteiro

    Se você quer conhecer as praias do Arrecifes, vá até à barraca do Julho, compre água de coco para os meninos e se estenda na sombra com sua mulher.

    Ela merece.

    Peça uma cachaça com água de coco e vá bebericando.

    Não esqueça de pedir o sururu e o caldinho de feijão.

    A peixada pernambucana é feita com azeite de oliva, se tiver outra é imitação.

    Caminhem de mãos dadas e rolem no chão até se fartarem.

    O sabor de água salgada é gosto de amor.

    Amor sem sal é cansaço.

    Não sacudam suas roupas, a areia é medicinal.

    De noite, passeiem pela calçada, contando estrela.

    Voltem sempre.

    Meu Recife é uma canção de Capiba, que canta amor e saudade.

    Recife, 12 de junho de 2024.

  • Mauritinha e uma letra

    Mauritinha e uma letra

    Marcos Monteiro

    Mauritinha acordou falando somente palavras com o p.

    Para que?

    Para provocar parentes próximos.

    Por que?

    Por pura pirraça.

    Boa noite.

    Pois, pois.

    No outro dia, escolheu outra letra.

    Ainda p?

    Foi fuleragem,
    farra findou.

    Veio tomar café?

    Foi. Faça favor.

    O que quer no almoço?

    Faça feijão, favas, fettuccine, farofa, frango, fatias finas.

    Gostou?

    Foi, formidável, fico freguesa.

    Maceió, 22 de fevereiro de 2026.

  • O direito de ser texto

    O direito de ser texto

    Marcos Monteiro

    O pretexto de um texto,
    Se presta a testificar
    O fato de que um texto irá
    Ser um pouco de inter texto.

    Pra muito texto encontrar
    O lugar que tem direito,
    Qual destaque num folheto
    Para as massas inflamar.

    Pra onde vai? E de onde vem,
    O texto que nos fascina
    E pede um céu com luar?

    Texto bom já nasce feito,
    Não pede licença a ninguém
    Só quer um céu com luar.

    Maceió, 21 de fevereiro de 2026.

  • Sem controle

    Sem controle

    Marcos Monteiro

    Fiquei sem meus pés no chão,
    Um peso o meu peito a apertar,
    Quando fui lhe encontrar
    Na cruz da minha aflição.

    Vaguei sem paz, sem razão,
    Sem entender quem eu sou
    Tudo que fiz desabou
    Como pedras de sabão

    Que meu corpo balançavam.
    Eu fui chamado de louco,
    Qualquer desgraça era pouca,
    E as minhas costas vergaram.

    Foi assim que eu entendi
    Do viço da natureza.
    Tanta poesia e beleza,
    São um presente do amor,
    Do tempo e das borboletas.

    Agora, pois, lhe convido
    Pra comigo mergulhar
    E, na incerteza do mar
    Ter a certeza da vida.

    Maceió, 23 de fevereiro de 2026

  • A alegria do Senhor é a nossa força

    A alegria do Senhor é a nossa força

    Marcos Monteiro

    Hoje a tristeza não manda, comei todas as gorduras,
    Este dia é do Senhor, do Seu povo em caminhada.
    Mandem pra quem não tem nada,
    O leite, o mel e as doçuras.

    Pra quem está com saudade, a Lei de Javé é procura
    De futuros e sociedades,
    Em que a fé, o amor e a ternura
    Se alimentam da vontade

    De ter força na alegria,
    de viver em comunhão
    Com a visão da nova trilha,
    Em que a noite é o novo dia,
    Sem dor, tristeza e aflição. Nm. 8,10.

  • Nóis é nóis no carnaval

    Nóis é nóis no carnaval

    Marcos Monteiro

    Viemos lhe convidar pra pular no carnaval,
    Com máscaras e fantasias
    Venha viver a folia
    Dessa alegria geral.

    Lute pelos seus direitos,
    Toda hora e todo dia
    Que quem luta faz poesia
    Se incluir outros trejeitos.

    O samba da prostituta, tamborim do povo negro,
    Música de quem labuta.

    Lésbicas, gays e tantos mais.
    Carnaval de cis e trans,
    De afoxés e berimbau.

    Maceió, 16 de fevereiro de 2026.

  • Hoje a tristeza não manda

    Hoje a tristeza não manda

    Marcos Monteiro

    Hoje a tristeza não manda, comei todas as gorduras,
    Este dia é do Senhor, do Seu povo em caminhada.
    Mandem pra quem não tem nada,
    O leite, o mel e as doçuras.

    Pra quem está com saudade, a Lei de Javé é procura
    De futuros e sociedades,
    Em que a fé, o amor e a ternura
    Se alimentam de vontades

    De ter força na alegria
    De viver em comunhão
    Com a visão da nova trilha

    Em que a noite é o novo dia,
    Sem dor, tristeza e aflição. Nm. 8,10

  • A cidade soterrada de cinzas

    A cidade soterrada de cinzas

    Marcos Monteiro

    Quarta feira de cinzas, a cidade
    Com o Rei Momo deposto
    E os súditos, indispostos,

    Já voltaram pras moradas.
    A multidão está triste
    E não espera por nada.

    O amor não mais existe
    Nem existe a batucada
    Mas um folião insiste
    Em dançar de madrugada.

    Maceió, 17 de fevereiro de 2026.

  • Setenta e quatro anos

    Setenta e quatro anos

    Marcos Monteiro

    Foi na esquina da Ipiranga com a Avenida São João que me apaixonei por mim mesmo.

    Já estava apaixonado por minha amada, pela vida, por Deus, e já era tempo, mas não estava pronto.

    O amor nunca está pronto para o amor.

    Convidei-me pra um show de Lô Borges e Milton Nascimento no Clube da Esquina e dançamos juntos pela primeira vez e declarei eu te amo!

    Eu pareci surpreso.

    Sempre me persegui e fugi de mim mesmo.

    Lembrei do primeiro beijo, da primeira vez que me declarei à minha amada e do primeiro beijo em Deus.

    Depois um vazio no coração, do tamanho de mim mesmo.

    Quando passo sorrindo pela ponte Buarque de Macedo e tenho medo, me chamam de louco.

    Mais louco é quem me diz que não é feliz.

    Somos um nó para todas as direções inclusive para o infinito.

    No Riacho Ipiranga, festa de 15 anos de amor.

    Meu coração dispara quando cruzo a Ipiranga com a Avenida São João.

    Porque somos o avesso do avesso do avesso do avesso do avesso.

    Mais louco é quem me diz que não é feliz.

    Eu sou feliz!

    Maceió, 16 de fevereiro de 2026.

  • O preço da verdade

    O preço da verdade

    Marcos Monteiro

    Nas primeiras comunidades,
    A situação era complexa.
    Considerando que é lógico
    Ser a mentira um fator
    Que traz desagregação,

    Quem não mentiu numa ação
    Ou ocultou a verdade?
    Talvez a necessidade de firmar a comunhão.

    Mas Safira não sabendo
    Que Ananias confessou,
    Toda a treta confirmou

    E Pedro, usando da autoridade
    A Safira expulsou, dez quilos de crueldade.
    Safira foi exilada por não saber da verdade.

    Maceió, 12 de fevereiro de 2026.