Categoria: Crônicas

  • O inferno e o fundo do poço

    O inferno e o fundo do poço

    Pácifer Maia Sabiá

    De onde vem o ódio ocidental? A angústia que paralisa de medo centenas de milhões no Ocidente. Por que esse filtro ideológico gigantesco, no qual maiorias caem no fogo do inferno da concretude cotidiana e privilegiados capitalistas conquistam a felicidade eterna?

    De onde vem essa divisão de classes tão coisificante do social? Que trava a construção de zonas de inteligibilidade a partir das maiorias, seccionadas em identidades-substâncias minoritárias.

    Quais as relações invisibilizadoras das interações entre ódio social, certos valores morais que corrompem o exercício ético-político e o aparato de classe que sustenta nossa visão imperialista de mundo?

    Que acordo tácito foi realizado entre o céu e a terra, sempre visibilizado pela violência imperialista dos deuses ocidentais? Deuses de toda ordem. Deuses que fazem continentes de quintais, numa indústria cultural alicerçada desde capitães do mato a mandatários de latifúndios digitais.

    É lógico que isso só poderia apontar para uma visão apocalíptica mastigada cotidianamente!

    Que não tenhamos de confrontar situações hospitalares negligenciadas por concepções espirituais abraçadas, inclusive, por integrantes de seus extratos de formação médica.

    Por onde anda uma psicologia, uma assistência social que não encara a violência de concepções religiosas que invadem nossas instituições, calçadas pelos tais valores morais invasivos e imperialistas?

    A realidade é multicêntrica, mas precisa ser pensada por categorias de totalidade, a caminho de uma epistemologia social.

    Necessitamos de nossa própria engenharia de projetamento social, que possa nos tencionar entre os coletivos e a singularidade, para o enfrentamento do fascismo de cada dia.

    Jan. 04/2026

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    FB Pácifer Maia Sabiá

  • Dissonâncias linguísticas

    Dissonâncias linguísticas

    Marcos Monteiro

    Estavam conversando sobre emoções.

    Você está sempre tranquila, Mauritinha.

    A vida é uma panela de pressão e tenho medo quando a sua explodir.

    Eu descarrego num texto cheio de dissonâncias ortográficas.

    O meu romance tem final infeliz, a heroína é uma paladina da norma culta.

    Foi assassinada quando descobriram incongruências, políticas, econômicas e linguísticas no seu romance.

    Vícios de linguagem, Oxímoros, catacreses, pleonasmos, redundâncias, repetições do ridículo, metonímias insensatas, petição de princípio, generalizações apressadas e outras transgressões.

    Eu tento fazer pior, jogo no lixo e saio leve para enfrentar o absurdo linguístico da vida.

    Maceió, 27 de fevereiro de 2026.

  • As praias do meu Arrecife

    As praias do meu Arrecife

    Marcos Monteiro

    Se você quer conhecer as praias do Arrecifes, vá até à barraca do Julho, compre água de coco para os meninos e se estenda na sombra com sua mulher.

    Ela merece.

    Peça uma cachaça com água de coco e vá bebericando.

    Não esqueça de pedir o sururu e o caldinho de feijão.

    A peixada pernambucana é feita com azeite de oliva, se tiver outra é imitação.

    Caminhem de mãos dadas e rolem no chão até se fartarem.

    O sabor de água salgada é gosto de amor.

    Amor sem sal é cansaço.

    Não sacudam suas roupas, a areia é medicinal.

    De noite, passeiem pela calçada, contando estrela.

    Voltem sempre.

    Meu Recife é uma canção de Capiba, que canta amor e saudade.

    Recife, 12 de junho de 2024.

  • Setenta e quatro anos

    Setenta e quatro anos

    Marcos Monteiro

    Foi na esquina da Ipiranga com a Avenida São João que me apaixonei por mim mesmo.

    Já estava apaixonado por minha amada, pela vida, por Deus, e já era tempo, mas não estava pronto.

    O amor nunca está pronto para o amor.

    Convidei-me pra um show de Lô Borges e Milton Nascimento no Clube da Esquina e dançamos juntos pela primeira vez e declarei eu te amo!

    Eu pareci surpreso.

    Sempre me persegui e fugi de mim mesmo.

    Lembrei do primeiro beijo, da primeira vez que me declarei à minha amada e do primeiro beijo em Deus.

    Depois um vazio no coração, do tamanho de mim mesmo.

    Quando passo sorrindo pela ponte Buarque de Macedo e tenho medo, me chamam de louco.

    Mais louco é quem me diz que não é feliz.

    Somos um nó para todas as direções inclusive para o infinito.

    No Riacho Ipiranga, festa de 15 anos de amor.

    Meu coração dispara quando cruzo a Ipiranga com a Avenida São João.

    Porque somos o avesso do avesso do avesso do avesso do avesso.

    Mais louco é quem me diz que não é feliz.

    Eu sou feliz!

    Maceió, 16 de fevereiro de 2026.