Reflexões a partir do romance de
Antônio Callado. Quarup. I e II. Rio de Janeiro: Record, 1984.
Marcos Monteiro
Podemos atribuir uma estrutura concêntrica ao romance “Quarup”, de Antônio Callado, onde a ORQUÍDEA ocupa o centro a partir do qual tudo o mais se irradia. “A ORQUÍDEA” é exatamente o título do capítulo central do livro e é a experiência culminante do padre (ex-padre, na verdade) Nando, em sua busca desenfreada de um significado, em sua missão de recriar o mundo, a partir do paraíso perdido. Por esse motivo, vamos propor uma chave de leitura do romance, a partir da construção e reconstrução de diversos paraísos. Esses são os títulos de cada capítulo, onde destacamos em negrito o capítulo central, “A Orquídea”.
O OSSUÁRIO
O ÉTER
A MAÇÃ
A ORQUÍDEA
A PALAVRA
A PRAIA
O MUNDO DE FRANCISCA
Mas o que seria a experiência ORQUÍDEA, ou a belíssima e exótica flor transformada em emblema e vivência, encontro inesperado com o mistério e o fundamento da existência, mergulho místico nas regiões insondáveis do todo? É a experiência do amor em sua plenitude erótica, erotismo que ultrapassa os sentidos mas que distende os sentidos, distendendo o tempo e o espaço
“Nando e Francisca não falaram. Apenas se voltaram um para o outro, braços abertos, e o breve instante em que se separaram foi para deixarem cair no chão as roupas sobre as quais se deitaram debaixo de orquídeas pálidas, separados do rio por um cortinado de orquídeas coloridas. Quando veio o prazer Francisca o fechou em lábios e pétalas quentes sem nenhuma palavra e Nando descobriu o gozo que é profundo e contínuo como mel e seiva que se elaboram no interior das plantas. Se de quando em quando se paravam boca ou ventre era para melhor se verem um instante e constatarem com assombro que eram ainda duas pessoas (p.319).”
Vamos partir, portanto, deste epicentro do Romance em que o amor acontece e cria a nova sociedade, formada por um novo homem e uma nova mulher. Quem são estas duas personagem que recriam a humanidade em seu ato amoroso e absoluto? Nando e Francisca. Nando, eternamente padre mesmo tendo deixado a batina, que “ninguém muda de profissão”, segundo o refrão repetido constantemente pelo amigo Manoel Tropeiro. Mas um padre que procurando o novo homem, o homem primígeno, encontra a mulher, procura exaustiva que se inicia pelo corpo da protestante ruiva alemã Winifreda.
“Eis a Mulher como quem acabou de oficiar uma missa negra. Para trás o doce fogo crepitante das ervas ruivas da vida, os vinhos que tingem a fronte e a frente de Winifreda, a Ruiva, circuncisora jovial de Olinfreda-sobre-o-Beberubicão, Winifreda, Bonifreda, Maisquebonifreda (p.88).”
Winifreda, esposa alemã do Leslie amigo de Nando, seduz o padre sofregamente desejoso de ser seduzido, o qual encontra no corpo sensual da ruiva respostas e perguntas inesperadas, caminhos e descaminhos desenhados sutilmente em seu próprio corpo.
“Nando entreabriu a batina, a camisa, aspirou o corpo usado, suado e quente enquanto ouvia o sapato rangendo vuic, vuic na areia. Os pelos negros do seu peito estavam ruivos, ruivas as axilas que olhou e sem dúvida o púbis, os braços. Teve medo de se olhar nas águas e ver olhos esbugalhados dentro da roda de fogo de cílios e sobrolhos vermelhos. Todo o mundo ia saber da ocupação do seu corpo católico, apostólico, romano por um ruivo exército protestante. Das canelas à rodela da tonsura (p. 88-89).”
Na descoberta do sexo da mulher a descoberta frustrante da pressa do sexo do homem, que não consegue segurar o gozo, corpo que se impacienta em expelir de dentro de si sêmen e expulsa aflito e impaciente a eternidade do ato. Tantas outras mulheres, de diversas existências e percepções ideológicas, amadas e amantes, mulheres que se tornam sexo, prazer, vida e promessa, mas que não constroem em Nando a paciência do gozo preparado devagar para ser mais bem desfrutado. Até que acontece Francisca.
No início, no ossuário, ainda padre, junto de Francisca, artista, restauradora de pinturas, mas separado de Francisca, noiva de Levindo, estudante idealista e revolucionário. No final, depois da “orquídea”, separado de Francisca, expatriada como subversiva, mas junto de Francisca, amando plenamente Francisca, através da luta por um mundo bem melhor do que este, o “mundo de Francisca”. Levindo morrera e Nando, partindo para a luta contra a estrutura militar, assume em homenagem a Francisca, pelo amor de Francisca, exatamente o cognome de “Levindo”. Francisca que não se esconde na arte nem na beleza, nem mesmo no amor por Nando, mas que para dar sentido à morte de Levindo, se envolve em atividades consideradas subversivas como ensinar agricultores a ler, a pronunciar a palavra que recria o mundo. Francisca que torturada e asilada, espera na Europa o tempo todo por Nando, disposta a adiar os ideais, confrontada com a impotência de se lutar contra uma estrutura que a tudo destrói. Esperança do amor de Nando que nunca se realiza. Primeiro porque a vigilância não permite a locomoção de Nando, depois porque confrontado com a possibilidade de assumir a luta clandestina, Nando desiste de sair do país, por achar que estaria assim traindo o amor de Francisca, traindo a própria Francisca.
E depois o apelo raciocinado: “O tempo que fiquei no Manicômio da Tamarineira e as horas que passei de interrogatórios embrutecedores me convenceram de que é mesmo preciso adiar o Brasil, Nando. Ficar aí é adiar a vida da gente. Principalmente a minha. A nossa… Eles estão facilitando o asilamento e fuga de todos os que estiveram presos. Foge para mim, Nando, eu sei que para você eu valho uma pátria, não valho?” Valia, valia todas as pátrias, valia o risco de uma vida duvidosa na Europa, da procura de sabe Deus que emprego. Tudo era preferível a saber Francisca longe e a chamá-lo com insistência e ignorar esse chamamento (p. 476).”
Tentativas e tentativas de fuga para o exterior e finalmente a oportunidade oferecida pela própria ditadura, contanto que desista do Quarup nordestino, recriação do Quarup indígena, festa sagrada de criação e recriação de homens e deuses. Entretanto, o momento é outro e outra a atitude de um Nando que encontra na festa em homenagem a Levindo, vítima e mártir esmagado e destruído pelo poderio militar, seu momento de continuidade de lutas abissais e de continuidade do seu amor por Francisca. Aconselhado a aceitar a oferta pelo amigo Djamil, o qual entende a idéia do jantar como frivolidade e irresponsabilidade, algo que não produz nada em termos políticos e ainda avacalha a luta de todos, ele responde paradoxalmente:
“– Aí é que eu estou começando a fazer não sei que confusão – disse Nando. – Como se, indo ao encontro de Francisca, eu estivesse fugindo dela para sempre. Eu gostaria que ao voltar Francisca me surpreendesse nos braços de Francisca (p. 543).”
Buscar Francisca é lutar para construir o “mundo de Francisca”, a luta por um mundo melhor torna-se projeto e atividade sexual porque esse mundo melhor é o mundo em que a sexualidade e o amor podem viver projetos e construções mais amplas e plenas. O paraíso é o lugar em que a sexualidade amorosa é caminho para o sagrado e encontro místico e não pode ser regrada ou reprimida.
Podemos, por conseguinte, perceber a cada capítulo, em cada momento, a localização e a construção de um tipo de paraíso. No centro do romance, o paraíso acontece em um recanto da floresta amazônica. A multiplicidade e variedade de orquídeas produzem uma luxúria cósmica, onde Nando, nos braços amorosos de Francisca, encontra pela primeira vez o orgasmo eterno, fusão de corpos, de histórias, de destinos, de almas. Nando aprendiz do amor e do sexo, pela mão e corpo de tantas mulheres, encontra no corpo de Francisca a sua pátria, a sua origem, a fonte de onde deve ele mesmo aprender a ser um novo homem, junto da nova mulher, Francisca, Francisca, Francisca.
“Tudo muda, pensou Nando, mas de tempos em tempos os homens tinham na matéria perecível de uma pessoa a prova do imutável. De século em século entra assim misteriosamente no tempo um fragmento da eternidade. Um momento para os que tiverem olhos de enxergar. O tempo iria erodindo a beleza de Francisca como dispersava afinal, grão a grão, as próprias estátuas em que os homens capturavam Franciscas. Mas o recado que Francisca trouxera em si de permanência da graça teria sido dado a todos os eleitos que a haviam conhecido na hora do fulgor. Afinal de contas só uns poucos, numa breve geração, privam e provam de Deus quando ele desce entre os homens (p. 278).”
No Paraíso da Orquídea, a beleza de Francisca foi colhida plena e eroticamente, como graça inefável de Deus, pelo desejo infinito de Nando. Não mais a pressa, mas o gozo permanente que dissolve tempo e espaço e cria a eternidade. Nando e Francisca tornam-se nesse amplexo o casal ancestral, fonte de novas relações, novas sociedades e novos mundos. Este paraíso central, está cercado pelo Paraíso da MAÇÃ, a tribo indígena, onde o homem brasileiro é encontrado mais uma vez como uma folha em branco a ser recriado. E cercado também pelo Paraíso da PALAVRA, que surge maravilhosamente libertadora na outra tribo, no Nordeste do Brasil, entre agricultores pobres e explorados. O Paraíso da Maçã, desde o início, se apresenta para Nando como oportunidade e vocação. No contato com as tribos indígenas, conhecidas e desconhecidas, se estabelece contatos com humanidades em diversos níveis. Desde a humanidade dos próprios indígenas em sua realidade complexa, como a humanidade de padres e indigenistas em histórias de coragem e abnegação, mas também de fraqueza e pusilanimidade. No imaginário que desperta Nando para a missão, a experiência dos jesuítas com os guaranis.
“Talvez nem haja mais os meios de organizar os índios numa outra República. Teríamos de encontrar outros métodos de cultivar esse último Adão. Mas no limiar do século dezessete, quando iniciaram sua obra, os jesuítas sentiram que Deus lhes entregava, em condições históricas, o homem em branco, o homem a ser escrito. O jardim do Éden se replantava aqui de acordo com todo o saber da Europa. O alemão Baucke chorou em plena lavoura no dia em que timidamente o primeiro índio começou a cavar a terra ao seu lado. O francês Berger convertia os índios tocando violino. O espanhol Mansilla espremia uvas para que os selvagens provassem o vinho. Quando perderam suas reduções confederadas em República, os guaranis construíram cidades, fabricaram foices e alaúdes, martelos e órgãos. No campanário da igreja de São João Batista, doze apóstolos circulavam, dando as doze horas do dia, e a porta do Colégio de São Lourenço fagulhava ao sol com suas jóias cristal de rocha. A produção comum entrava para os armazéns comuns e se distribuía entre todos para el bien común. As mulheres recebiam o fio e entregavam os tecidos. Não havia nem salário, nem fome. Isto não é lenda, é história. O que os jesuítas chegaram a anunciar, e o mundo esqueceu, é que o homem não precisa de milênios para desbastar em si a imagem de Deus que está no fundo (p.30).”
Essa imagem idealizada do passado contrasta com a situação concreta do presente. Os indígenas também têm falhas humanas como o ciúme e a violência pessoal, mas também não se pode negar que são as vítimas de um processo de ocidentalização violento sob quaisquer aspectos que se resolva analisar. O índio Aicá coberto de pústulas é demonstração corporal dessa violência e a epidemia que atinge os sauás e os dizima denuncia o genocídio a que foi submetida toda uma série de etnias habitantes desse mesmo solo em que vivemos hoje. Nesse paraíso, alguns descendentes dos opressores ocidentais escrevem páginas de dedicação e solidariedade, com risco da própria vida. O próprio Nando tornara-se uma dessas figuras abnegadas que afrontam o perigo e buscam a pacificação de tribos hostis. Pacificou os gorotire e andou meses atrás dos txikão que se esquivavam dos seus presentes até que chegou o momento crucial. Diante dos presentes arrumados perto da aldeia, a possibilidade de paz ou de morte e os sentimentos bem específicos do ex-padre Nando, que enfrenta sem medo a situação de risco.
“O medo não chegou porque o voto que Nando fez era o de sempre, real como sempre: me varem de flecha, me matem de borduna, me deixem com apenas meia-vida se o preço for amar lentamente as mulheres. Se o preço é este, glória a Maivotsinim sobre o Cristo. Na terra de ninguém entre Nando e os índios na última dúvida houve um câmbio de eflúvios pelo menos tão real quanto uma corrente elétrica. Dias depois três txikão chegaram ao Posto Capitão Vasconcelos atrás de Nando como ovelhas seguindo o pastor. Cristo vencera (p. 272-273).”
A “vitória” de Cristo significou a possibilidade de Nando prosseguir até o Paraíso da Orquídea e depois, junto com Francisca, no passo progressivo de reconstrução do mundo, chegarem ao Paraíso da Palavra. No encontro com a população pobre do Nordeste, especialmente com os agricultores organizados em Ligas Camponesas, o processo de uma alfabetização que mais do que leitura de palavras é leitura de mundo. O Brasil vive então um momento de efervescência e os círculos de Paulo Freire estão acontecendo durante o governo João Goulart, especialmente entre os agricultores pobres do Nordeste. O governador e a personagem Januário, em Pernambuco, são menções de personagens reais mal-disfarçados. Assim, Miguel Arraes e Francisco Julião tornam-se tipos reais para personagens do romance.
No novo Paraíso da Palavra, Nando e Francisca, o casal ancestral, ensinam a pronúncia da palavra que cria e recria mais uma vez o mundo. Dividida em suas sílabas e multiplicadas em suas famílias, as palavras cotidianas tornam-se caminho de crescimento pessoal e coletivo e instrumento de lutas e de libertação. A palavra vem em profusão geradora, gera consciência, produz problematização e se oferece como processo de decodificação dialógica para a construção conjunta desse novo mundo que está vindo de múltiplas maneiras. Nesse momento, a esperança e a alegria de ser instrumento de construção de novas sociedades é imensa e o novo mundo está às portas.
– Meu Reino de Deus foi adiado – disse Nando. – Por pouco. Em nenhum lugar do mundo o mundo está sendo tão rapidamente alterado e tornado melhor como aqui, neste ponto do Brasil, neste momento. E eu estou dentro do turbilhão. Sou uma faísca do raio. Quando além disto eu tiver Francisca vou viver ao mesmo tempo nesse turbilhão e na eternidade. Entendeu? (p. 399).
Mas esse novo mundo vai demorar muito mais porque a história tem as suas próprias regras e surpresas. O Paraíso do Éter e o Paraíso da Praia estão mais distantes do centro, do Paraíso da Orquídea, mas ambos propõem dois espaços diferentes de liberdade. O carnaval é o símbolo desse primeiro paraíso e a praia em sua promissão de horizontes é o próprio convite de uma nova possibilidade de paraíso. O Paraíso do Éter acontece logo que Nando, no Rio de Janeiro, se prepara para cumprir a sua missão no Xingu, o Paraíso da Praia é o lugar em que Nando, depois do golpe militar, perdendo Francisca para a repressão e não conseguindo ir ao seu encontro, transforma a praia em um novo lugar de produção de um novo homem e uma nova mulher. No primeiro paraíso, sob o éter do lança-perfume, a pátria pode ter contato com o seu inconsciente coletivo, é o caminho de volta para o dionisíaco afogado em um projeto apolíneo linear e repressor. O éter é a substância libertadora que age na direção de desconstrução de uma consciência aprisionada, torturada e violentada. Possibilidade de ampliação dos sentidos e de mergulhos em dimensões existenciais subjetivas, além da banalização do cotidiano. O carnaval tem uma força em si mesma que deve ser canalizada para construções diversas.
A “vitória” de Cristo significou a possibilidade de Nando prosseguir até o Paraíso da Orquídea e depois, junto com Francisca, no passo progressivo de reconstrução do mundo, chegarem ao Paraíso da Palavra. No encontro com a população pobre do Nordeste, especialmente com os agricultores organizados em Ligas Camponesas, o processo de uma alfabetização que mais do que leitura de palavras é leitura de mundo. O Brasil vive então um momento de efervescência e os círculos de Paulo Freire estão acontecendo durante o governo João Goulart, especialmente entre os agricultores pobres do Nordeste. O governador e a personagem Januário, em Pernambuco, são menções de personagens reais mal-disfarçados. Assim, Miguel Arraes e Francisco Julião tornam-se tipos reais para personagens do romance.
No novo Paraíso da Palavra, Nando e Francisca, o casal ancestral, ensinam a pronúncia da palavra que cria e recria mais uma vez o mundo. Dividida em suas sílabas e multiplicadas em suas famílias, as palavras cotidianas tornam-se caminho de crescimento pessoal e coletivo e instrumento de lutas e de libertação. A palavra vem em profusão geradora, gera consciência, produz problematização e se oferece como processo de decodificação dialógica para a construção conjunta desse novo mundo que está vindo de múltiplas maneiras. Nesse momento, a esperança e a alegria de ser instrumento de construção de novas sociedades é imensa e o novo mundo está às portas.
– Meu Reino de Deus foi adiado – disse Nando. – Por pouco. Em nenhum lugar do mundo o mundo está sendo tão rapidamente alterado e tornado melhor como aqui, neste ponto do Brasil, neste momento. E eu estou dentro do turbilhão. Sou uma faísca do raio. Quando além disto eu tiver Francisca vou viver ao mesmo tempo nesse turbilhão e na eternidade. Entendeu? (p. 399).
Mas esse novo mundo vai demorar muito mais porque a história tem as suas próprias regras e surpresas. O Paraíso do Éter e o Paraíso da Praia estão mais distantes do centro, do Paraíso da Orquídea, mas ambos propõem dois espaços diferentes de liberdade. O carnaval é o símbolo desse primeiro paraíso e a praia em sua promissão de horizontes é o próprio convite de uma nova possibilidade de paraíso. O Paraíso do Éter acontece logo que Nando, no Rio de Janeiro, se prepara para cumprir a sua missão no Xingu, o Paraíso da Praia é o lugar em que Nando, depois do golpe militar, perdendo Francisca para a repressão e não conseguindo ir ao seu encontro, transforma a praia em um novo lugar de produção de um novo homem e uma nova mulher. No primeiro paraíso, sob o éter do lança-perfume, a pátria pode ter contato com o seu inconsciente coletivo, é o caminho de volta para o dionisíaco afogado em um projeto apolíneo linear e repressor. O éter é a substância libertadora que age na direção de desconstrução de uma consciência aprisionada, torturada e violentada. Possibilidade de ampliação dos sentidos e de mergulhos em dimensões existenciais subjetivas, além da banalização do cotidiano. O carnaval tem uma força em si mesma que deve ser canalizada para construções diversas.
“– Eu não aconselho você a mudar de vida – disse Nando. – E você pode tornar essa vida tão útil como qualquer outra, obrigando os homens a gozar com vocês, a esperar por vocês. Ensinem aos meninos um amor fundo e sem pressa. O Brasil faz planos de governo de cinco anos que duram cinco meses e planos de três anos que duram três dias. Presidentes eleitos por cinco anos possuem a pátria em sete meses, abotoam a braguilha e vão embora. E há Presidentes que duram dois dias (p. 535).”
A nova sociedade só pode ser produzida através de uma nova sexualidade. Nas relações amorosas, no abraço, no beijo, nas trocas sexuais e genitais, há um caminho de aprendizado que supera o caminho político e o caminho econômico. Essas relações sexuais, corporais, têm uma dimensão mística que escapa de qualquer objetivação e que são fonte de coragem para lutas imensas, além de qualquer compreensão. Os últimos projetos de paraíso a serem analisados constituem os espaços definidos pelo primeiro e pelo último capítulo do livro, o que nos oferece um itinerário, uma caminhada em busca desse lugar utópico que é ao mesmo tempo uma busca de si mesmo. É a peregrinação do Paraíso do Mosteiro para o Paraíso de Francisca, início e fim de uma aventura inconclusa, ou seja início e fim de um fim que não é fim. O paraíso pleno, o Mundo de Francisca, está sempre mais adiante, não é objeto de que disponho mas projeto que me convida a compromissos sempre maiores. O Mundo de Francisca é fusão e refusão de todos os mundos, itinerário do místico à sensualidade, sensualidade que deve ser o caminho para o novo mundo, onde as pessoas viverão o seu corpo em plenitude, comunhão humana e comunhão divina. O Mundo de Francisca não vive a disjunção entre sagrado e sexualidade, mas a integração plena desses dois valores. Isso não virá sem luta, em um Brasil ocupado pela ditadura e pela mentalidade militar da violência androcêntrica; por isso Nando assume a luta clandestina. No início da caminhada, um Padre Nando, na companhia de duas mulheres igualmente interessantes. Voto de celibato cumprido à risca, não percebe a beleza erótica de Francisca, a artista que restaura ao seu lado obras de artes, especialmente relacionadas à vida de Santa Tereza. Essa é a outra mulher admirável em sua intensidade mística em que a linguagem erótica aponta para uma sensualidade transmutada totalmente em fervor sagrado.
“– Esta divina prisión
del amor há que yo vivo
há hecho a Dios mi cautivo
y libre mi corazón;
y causa em mi tal pasión
ver a Dios mi prisionero,
que muero por que no muero (p.45).”
Apaixonada por Deus, Santa Tereza contrai núpcias místicas com Jesus Cristo, e se diz muito mais do que pobre de espírito, louca de espírito. O misticismo de Tereza e a sua personalidade admirável apaziguam e justificam o celibato de Nando. Mas Nando mal começou a sua peregrinação e vive paralisado no seu projeto de pastorear os indígenas. O medo não confessado é do corpo e do sexo das indígenas, medo que só vai desaparecer depois da sua iniciação sexual por Winifreda.
Essa diferente e paradoxal ascese continua como crescimento que vence obstáculos novos e que precisa de novos significados para a sua religiosidade. Como afirma Manoel Tropeiro que ninguém muda de profissão, Nando deixa a batina mas não deixa de ser padre, refazendo e reconstruindo a sua experiência do sagrado. No Paraíso da Orquídea, mergulhando vagarosamente no corpo de Francisca, mergulha em si mesmo, mergulha na vida, mergulha no cosmos, mergulha no próprio fundamento do mistério. Mistério que não pode ser dispensado em nenhum projeto de nova sociedade.
“– Aproveite a ocasião e trate de se habituar com ele – disse Nando. – Cheiro, gosto, densidade. Mas tem uma coisa, Januário. Você faça o que quiser, vire os fatos como entender, escolha o caminho que lhe aprouver. Mas existe na violência um horror próprio, um elemento negativo inaceitável. E isto, meu velho, é porque nós somos uns bichos de muito mistério. A concepção de Deus está desatualizada, caduca, empresarial, mas vamos precisar dela posta em outras palavras. Senão o mistério come o homem inteirinho, você vai ver.
Januário deu os últimos passos até ao jipe com pernas firmes.
– O que é que quer dizer isto?
– Quer dizer que neste mistério que é o homem a presença divina só admite a violência do amor (p. 428).”
O mistério está associado ao amor, e se esconde, por conseguinte, no projeto de sexualidade humana. O corpo humano é lugar de mistério e fonte de mistério, amar é dividir mistério corporal, é buscar o sagrado pela força do erótico. Por ser sagrado, lugar de expressão do mistério, o corpo humano é inviolável, não pode ser tolhido, proibido, torturado, esmagado. O paraíso de Francisca, o mundo do corpo de Francisca, só pode se afirmar plenamente como corpo se não dispensar o mistério. A luta não se trava, por conseguinte, nos espaços rotineiros já convencionados como espaços de guerra e de competição. Se o fundamento da vida e da nova sociedade é o mistério, as suas armas não podem ser convencionais. Se o mistério está sempre associado ao corpo e ao amor, a dança, a festa, a comida, o Quarup, são os verdadeiros instrumentos de construção dessa nova sociedade. Maivotsinim sabe que só pode criar gente através do Quarup, e Nando entende que a nova sociedade só pode ser construída a partir da festa e do jantar em homenagem a Levindo. O caminho da construção do Paraíso de Francisca passa pelo Quarup brasileiro, em que todo tipo de comida é preparada e a Marcha pela Família que acontece paralelamente vai se sentir afrontada. Afrontada pela alegria, pelo riso, pelo prazer de comer e de viver a vida com intensidade, as estruturas sociais repressoras, as instituições sociais enrijecidas, invadem o espaço da festa e a violência se estabelece sobre todos, especialmente sobre Nando. E a festa tinha todo o tipo de comida cuja transcrição detalhada tem o único objetivo de nos dar água na boca, que o prazer imaginado também é prazer.
“Nas geladeiras improvisadas pelos quatro cantos do quintal se acumulou depressa o fruto das pescarias e mariscagens de Amaro, Zeferino, Quimango e Margarida, das ostras e lagostas e lagostins à traíra cor de salmão, ao jacundá amarelo de listras pretas, ao sapé vermelho-escuro com bolinhas pretas; ao camurupim branco-cinza-dourado, de escamas medalhonas que servem para fazer flores. Ao beija-moça miúdo, focinho miúdo, boca pequetitinha; ao saberé roxo com listras amarelas, ao serra esguio, papo branco e lombo azul; à garoupa; à cioba vermelho-rosa; à arabaiana cinzenta; beijupirá preto e branco; bicuda roxo-claro; mero amarelo-moreno com pintas pretas; agulhão atum e agulhão de agulha; boca-mole branco e brilhoso; sapuruna, saramonete, canculo; cação cinzento e liso; carapeba e peixe-pena; tainha, pirapinanga cor-de-rosa; arraia morceguenta; amoréia cobra verde; bonito listrado de azul; dourado amarelo de lombo azul; budião; frade; coro-branco e coro-vianei; peixe-gato que bufa horas fora d’água; barbudo com sua barba branca; polvo; mariquita rosa de olho grande; pacamão; dentão; albacora cor-de-rosa; pirá verde de barriga branca; avoador que voa duzentos metros a dois metros de altura; camorim, agarujuba, aracimbora, xaréu, xinxarra, anchova, acaraúna azul e preta. E vieram as pimentas, malagueta, do reino, pimenta d’água, pimentinha, pimentão ardido, o azeite-de-dendê, o açafrão, gengibre, gergelim, tachos de goiaba, de marmelo, de jaca, de mangaba, de caju. Metediço, intrometido, aguardando o momento de entrar em tudo, coco, coco verde, coco seco, leite de coco aos baldes, laminha de coco, coco de ralar, coco de espremer, coco para entrar no escabeche com cebola e coentro e para amolecer feijão de corda, fradinho, rajado, para cocada, baba-de-moça, papo-de-anjo, perna-de-freira, ambrósia. Em bacias, tachos, louça de barro e louça vidrada começou a entrar o peixe escamado, destripado, desespinhado, lavado a limão e água, pronto para cozedura, fritura, infusão, escaldamento em azeite de cheiro, azeite doce, jilós, quiabos, abobrinhas, coco. Dois dias antes do jantar de Levindo as cozinheiras que seriam quatro já eram quatorze pois as notícias da comilança correram de Cecília e Jandira para outros puteiros, de Djamil para os sindicatos rurais interditados, para a redação dos jornais. Djamil dividiu o quintal transformado em cozinha em quatro zonas, da fritura, do cozimento, da assadura e da doçaria. Baianas chefiadas por Diacuí, também dita Manoela, exigiam fogão, frigideira, pedra de ralar e tipiti e tudo isto obtiveram depois de Diacuí improvisar à moda de teste um humulucu de feijão com raladura de cebola, sal, camarão. Severina alagoana veio empurrando pela rua numa velha banheira de rodinhas um despotismo de sururu e foi de jipe no avião de Maceió buscar uma geladeira portátil cheia daquelas baitas ostras de oceano congelado em conchas de sílex. Mariana Maranhense contribuiu um jacá de camarões secos e Marta Branca amazonense trouxe duas mantas de pirarucu e um balde d’água agitado de muçuãs. Preparou-se aluá de milho e de abacaxi, caldo de caju, refresco de graviola e de cajarana. E de coco (549-551).”
Na violência que se seguiu, a comida foi usada pelos sitiados como arma de defesa e resistência. Jogava-se e derramava-se comida, molhos e sucos contra os invasores de festa.
A partir disso, os acontecimentos se precipitaram e Nando, castigado com toda a violência possível, recupera-se somente depois de longo período e resolve partir para a luta clandestina. Construir o Paraíso de Francisca. O corpo de Francisca lembrado e projetado sobre cada pedaço de terra e cada acidente geográfico, é o molde desse novo mundo. A luta é mais uma vez o pleno abraço sexual de Nando, agora cognominado Levindo, sobre o corpo desnudo de sua amada, esse paraíso sempre adiante e sempre adiado.
Nando já a cavalo mal ouvia Manoel Tropeiro. Sentia que vinha vindo a grande visão. Sua deseducação estava completa. O ar da noite era um escuro éter. A sela do cavalo um alto pico. Da sela Nando abrangia a Mata, o Agreste e sentia na cara o sopro do fim da terra saindo das furnas de rocha quente. E viu: aquele mundo todo com sua cana, suas gentes e seus gatos era Francisca molhando os pés na praia e de cabelos ardendo no Sertão (p. 599-600).
Só se pode encontrar Francisca construindo o mundo de Francisca. E o mundo de Francisca é a própria Francisca feita mundo. Caminhar pela terra é modo de tocar Francisca e de modelar o corpo-terra de Francisca. Porque o único mundo que vale a pena ser construído é o mundo-corpo prazeroso, erótico, amoroso, de Francisca.
Maceió, 15 de março de 2026.


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